segunda-feira, 28 de abril de 2014

Loucas noites, Wild nights de Emily Dickinson

Se toda a a poesia de Emily Dickinson (1830-1886) pudesse ser resumida em uma frase, seria nesta: “Nature is the highest art.”

Uma das maiores escritoras de língua inglesa, Emily é dessas que tinha tudo para não ficar famosa. Nunca saiu da casa paterna, a pacata Amherst, perto de Boston, no nordeste dos Estados Unidos, nunca saiu do país ou conheceu cidades próximas e também nunca se casou  o que para a época era algo bastante “incomum” para uma mulher. A natureza lhe bastava. E é nela onde Emily enxergava sua poesia.

O ambiente natural  rios, pássaros, gramas, abelhas, sempre elas  parece inspirá-la a escrever sobre outros temas como amor, fé, amizade, fama, rebeldia e até morte  Emily presenciou a perda de muitos familiares e amigos queridos em um curto espaço de tempo. Em 1884, escreveu a uma amiga “The Dyings have been too deep for me, and before I could raise my heart from one, another has come.” Sua amargura, porém, não deixa esmaecer toda a delicadeza e simplicidade de alguns de seus poemas, como em “‘Hope’ is the thing with feathers” e “If I could stop one Heart from breaking”.

O verso livre o não respeito às convenções da época também caracterizam o estilo de escritora norte-americana. Pequenas omissões, o abuso de travessões e maiúsculas e a ausência de títulos estranharam seus primeiros editores, que chegaram a publicar em 1890, após sua morte, uma edição “corrigindo” esses erros. Acrescentavam títulos, mudavam palavras e versos inteiros para se conformar a uma métrica mais regular. Edições posteriores foram mais fiés à autora.

Falando em fidelidade, nesta edição bilíngue da Disal e tradução de Isa Mara Lando, é possível acompanhar como cada verso foi traduzido, assim como conferir comentários da tradutora, que enriquecem a compreensão do texto. E, como não se pode evitar, algumas “infidelidades” cometidas em função da métrica, do ritmo, da beleza sonora ou da expressividade. Mas ela afirma: “Por amor a Emily  doces Amigos meus  julgai-me com brandura.”

A edição ainda nos brinda com uma seção “faixas bônus” contendo poemas que não alcançaram uma tradução à altura em português. É motivador quando a tradutora  e também profunda conhecedora da alma de Emily  assume seu papel, explicando o texto, oferecendo alternativas e convidando o leitor a pensar junto. Sem dúvida, um livro necessário para os amantes de poesia e tradução.


Meus preferidos (inclusive as traduções):

If I can stop one Heart from breaking
I shall not live in vain;
If I can ease one Life the Aching,
Or cool one Pain

Or help one fainting Robin
Unto his Nest again,
I shall not live in vain.

Tradução © Isa Mara Lando:

Se eu impedir que se parta um Coração
Não terei vivido em vão
Ou abrandar uma só Dor, um só momento

Ou ajudar um Passarinho
A voltar de novo ao Ninho
Não terei vivido em vão.




A little Madness in the Spring
Is wholesome even for the King,
But God be with the Clown
Who ponders this tremendous scene
This whole Experiment of Green
As if it were his own!

Tradução © Isa Mara Lando:

Um pouquinho de Loucura
Ao chegar a Primavera
Faz bem até para o Rei,
Mas veja o Bobo da Corte  —
É ele que está com Deus
Pondera essa cena tremenda
A Experiência estupenda
E diz: “Esses Verdes são todos meus!”


Take all away from me, but leave me Ecstasy,
And I am richer then, than all my Fellow Men —

Is it  becoming me, to dwell so wealthily,
When at my very Door
Are those possessing more,
In boundless poverty?

Tradução © Isa Mara Lando:

Tirai-me tudo, mas deixai-me o Êxtase,
E rica serei, mais que todo o Ser Humano  —

Como posso redidir em tal riqueza,
Se vejo em meus Umbrais
Os que possuem mais,
em tal infinita pobreza?

Livro: Loucas noites, Wild nights - 55 poemas de Emily Dickinson
Tradução e comentários: Isa Mara Lando
Editora: Disal
Ano: 2010
Edução Bilíngue
Para comprar: Livraria Cultura

domingo, 27 de abril de 2014

Ficções, de Jorge Luis Borges


Ler um conto fantástico de Borges é como ler um grande autor como Dostoiévski pela primeira vez: uma experiência única. O alto padrão de sua escrita combinado com o teor intelectual e filosófico de seus contos conferem-lhe um estilo insólito primoroso, digno de grandes escritores.

Ficciones (1934-1944) é obra-prima de Borges, pois deu fama internacional a seu autor e marcou para sempre gerações de leitores no mundo todo. Esse grande livro reúne contos fantásticos cuja crítica especializada tem encontrado dificuldades nas análises interpretativas, múltiplas em cada caso.

Além de sua forte inspiração em Kafta, o que rendeu ao escritor ser um dos grandes nomes na literatura fantástica, a novidade do conto borginiano está na moderna conjunção de arte e pensamento.

Jorge Luis Borges, poeta douto, reflexivo e crítico, abomina o romance psicológico, é uma espécie de anti-Proust, um escritor absolutamente não confessional. Ele soube “ritmar o próprio pensamento dando expressão artística a uma constante reflexão sobre a literatura e a certas generalizações abstratas sobre o universo”[1].

A figura do Narrador, onipresente em suas narrativas, transforma a matriz do conto literário que ele, articuladamente, trabalha. Em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o Narrador, ao longo do texto, joga com elementos ambíguos da ficção e da realidade, a ponto de direcionar o leitor a Sua perspectiva, muitas vezes falaciosa e abstrata, sustentada por argumentos conjeturais.

Como no excelente “A morte e a bússola”, Borges demonstrava também gostar de narrativas de aventura e policiais, porém com um particularidade: modifica substancialmente esses gêneros “pelo teor de perquirição filosófica e explicitação irônica do jogo intelectual que neles introduz”[2].

Não há como dispensar a contribuição do conto filosófico de Voltaire na formação de Borges. Neste tipo de conto predomina uma dualidade: de um lado, o plano da história (em que prestamos atenção no destino dos personagens), do outro, o plano do discurso (em que nos fixamos nas idéias do narrador em sua destreza em exprimi-las). Na verdade, essa dicotomia é latente em toda narrativa, mas aflora no conto filosófico pelo papel sobressalente que se atribui ao narrador. Este tenta impor sua visão de mundo intelectualizada e fantasiosa, às vezes beirando a sátira.

Apreciei muito a leitura de Ficções – apesar da edição da Editora Globo não merecer tantos elogios, com graves erros de revisão e tipográficos –, sobretudo pelo caráter extremamente universal de cada conto. É como se cada estória existisse além da História, desarraigada do tempo e espaço, autônoma em relação à realidade; sua metafísica transcende. Um livro para todas as gerações.

(Resenha originalmente publicada em fevereiro de 2008)

Livro: Ficções
Autor: Jorge Luis Borges
Editora: Globo
Ano:  2001


[1] Trecho de Davi Arrigucci Jr no prefácio a terceira edição da Editora Globo, São Paulo, 2001.

[2] Idem

domingo, 20 de abril de 2014

Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes



As palavras nunca são loucas (no máximo perversas), é a sintaxe que é louca.
Roland Barthes


O que é o amor? Indagação nada fácil de responder, poetas e românticos de todos os tempos se esforçaram e se esforçam para alcançar ao menos um resquício do que venha a ser Eros. Roland Barthes aposta então em outra pergunta: Como o amor se apresenta quando ele é comunicado? Isto é, quando está infundido num complexo emaranhado de estruturas e fórmulas que é a linguagem?

Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, pretende investigar o amor – ou a condição amorosa – no ponto de vista do discurso. A carta de amor, as declarações, são formas de tentar pôr em palavras um sentimento sublime e quase imperscrutável, por isso que o discurso amoroso é, muitas vezes, contraditório, exagerado, louco.

Para incorrer nesse desafio, Barthes, como ilustre intelectual da França de 1968, escolhe um método “dramático” na sua escrita, renunciando a exemplos e substituindo a simples descrição do discurso amoroso por sua simulação, desenvolvendo-se em primeira pessoa, o “eu” amoroso, posto que o livro todo é uma enunciação, e não uma fria análise. É alguém (o amante) que fala de si mesmo e do outro (objeto amado), que não fala.

Para compor o sujeito apaixonado, o semiólogo também se vale de inúmeras e preciosas referências, que acompanham essa enunciação ao longo do livro. As citações a Werther de Goethe norteiam todo o discurso, ao lado de textos clássicos como O Banquete de Platão, além de consagrados escritores – Proust, Flaubert, Balzac, Baudelaire, Stendhal – e filósofos – Freud, Sartre, Lacan e Nietzsche. Há também o que Barthes recolheu em conversas com amigos e experiências de sua própria vida.

Abordando de maneira criativa um tema considerado démodé para a intelectualidade da época, Fragmentos de um discurso amoroso é livro obrigatório para aqueles que se interessam por literatura, linguística, filosofia e, é claro, amor.

Livro: Fragmentos de um discurso amoroso
Autor: Roland Barthes
Editora: Martins Editora
Edição: 1ª edição
Ano:  2003

(Resenha originalmente publicada em fevereiro de 2008)