segunda-feira, 31 de março de 2014

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda

Uma das verdadeiras obras fundadoras da moderna historiografia e ciências sociais brasileiras, Raízes do Brasil é um clássico que dispensa apresentações.

Sérgio Buarque de Holanda se propõe a investigar, como exposto no título, as raízes sócioculturais fundadoras do Brasil, isto é, o que faz com que nosso “jeitinho” seja facilmente reconhecido como característica eminentemente brasileira.

Nossa incapacidade de separar vida pública e vida privada, valorizando mais aspectos afetivos que meritórios, continuam trazendo consequências, principalmente, nas relações de trabalho, em que o nepotismo é prática constante e histórica.

Essa característica juntamente com outras constroem a imagem do “homem cordial”, o qual não pressupõe bondade, mas somente o predomínio de comportamentos de aparência afetiva. Não seria o espelho de nossa sociedade?

Tanto pelo seu método de análise quanto pela erudição e desenvoltura da escrita, Raízes do Brasil, publicado pela primeira vez em 1936, se mantém atual e influenciando gerações de historiadores. Todas essas qualidades fizeram deste livro, nos dizeres de Antonio Candido, “um clássico de nascença”.

Livro: Raízes do Brasil
Autor: Sérgio Buarque de Holanda
Editora: Companhia das Letras,
Edição: 26ª edição
Ano:  2007

(Resenha originalmente publicada em 14 de junho de 2008)

segunda-feira, 17 de março de 2014

A biblioteca do tradutor



É consenso afirmar que para traduzir bem é preciso antes saber escrever bem. Eu acrescentaria  "ler bem" à sequência. Por isso, listo aqui alguns livros essenciais que não poderiam faltar na biblioteca do bom tradutor.

Paulo Rónai, A Tradução Vivida. Rio de Janeiro, José Olympio, 2012. (edições anteriores da Nova Fronteira)

Paulo Henriques Britto, A Tradução Literária. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012. 

Paulo Rónai, Escola de Tradutores. Rio de Janeiro, José Olympio, 2012. (edições anteriores da Nova Fronteira)

Rosemary Lajolo, Oficina de tradução: A teoria na prática. São Paulo: Ática, 2007

Brenno Silveira, A Arte de Traduzir. São Paulo, Unesp/Melhoramentos: 2004

Umberto Eco, Quase a Mesma Coisa. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2007.


Para melhorar o português:

Othon Moacyr Garcia, Comunicação em Prosa Moderna. São Paulo: FGV, 2010.

Gladstone Chaves de Melo, Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria Editora Padrão, 1976. (Esgotado, apenas em sebos!)

Adriano da Gama Kury, Novas Lições de Análise Sintática. São Paulo: Ática, 2003.


Para quem traduz do inglês:

Agenor Soares dos Santos, Guia Prático da Tradução Inglesa. São Paulo, Elsevier, 2007.

Alguma outra sugestão?

quinta-feira, 13 de março de 2014

Tradução In Cold Blood, by Truman Capote

O Chevrolet negro estava estacionado novamente, desta vez em frente ao Hospital Católico nos arredores de Emporia. Sob contínua provocação, (“Seu mal é esse. Acha que há somente uma maneira de resolver as coisas – a maneira de Dick”), Dick se rendeu.

Enquanto Perry esperava no carro, Dick entrou no hospital para tentar comprar um par de meias pretas de uma freira. Tal método nada ortodoxo foi ideia de Perry: as freiras, dizia, certamente teriam um estoque. Havia uma desvantagem, porém: as freiras, e seus pertences, davam azar, e Perry levava a sério suas superstições. (Outras eram o número 15, cabelos ruivos, flores brancas, padres atravessando a rua, sonhar com cobras).

Ainda sim, nada podia ser feito. Os supersticiosos compulsivos, em geral, acreditam piamente no destino. Com Perry não era diferente. Aqui estava, envolvido nessa missão, não porque desejava, mas por obra do destino. Poderia prová-lo – mas não tinha intenções de fazê-lo, ao menos perto de Dick, pois a prova envolveria a confissão da verdade e do motivo de seu retorno ao Kansas, uma violação da condicional que decidira não fazer parte dos “planos” de Dick ou sua carta de convocação. © Taynée Mendes, 2012

Trecho no original em inglês:

quarta-feira, 12 de março de 2014

Aventuras linguísticas

Tudo bem? Tudo bom. Você? Tudo ótimo.

Flora Thomson-DeVeaux

Here’s something for the Brazilians in the peanut gallery to ponder. This has been bothering me for quite some time. Do you realize exactly what you are affirming when you say that tudo está bem? Tudo is a big word to be throwing around every time you greet someone. Tudo. Everything. Every last thing, from the weather to the state of international relations to your grandmother’s dog. Tudo, in the history of the world, has literally never been bem, bom, or ótimo. Not even close. At the very least being able to say “tudo bom” smacks of provincialism, or a serious lack of introspection. Really? Tudo?

These are things about living in Brazilian Portuguese that no amount of seminar discussion or textbook exercises could have prepared me for – little linguistic mysteries that I find baffling or amusing on a daily basis.

Tradução: There Is No Me Without You, by Melissa Fay Greene

O vento espalhou névoa pela porta da frente. O cômodo de tijolo coberto de cal parecia mergulhar e oscilar como se remássemos um barco açoitado por ondas escuras. Ao meu lado, a viúva mumificada começava a predominar no ambiente aos poucos, à medida que seu xale de algodão se desenrolava.

Levou algumas semanas para me acostumar. Nas longas tardes quando o ar engorda a água em Adis Abeba, os animais da cidade – bodes, ovelhas, burros, cachorros de rua, pica-paus, tordos, andorinhas – dormem de pé em rachas e caramanchões, ou com as cabeças afundadas no dilúvio. Foi nesse momento que desejei subir as escadas para o meu quarto no pequeno hotel Yilma, tirar meus sapados cheios de lama e meias, beber água na garrafa, jogar-me na cama com o livro History of Modern Ethiopia de Bahry Zewde, e dormir enquanto as longas e transparentes cortinas balançam no quarto, entranhado com o cheiro e o peso da chuva.

Mas eu estava presa na cadeira do salão de Haregewoin e não havia como sair. A inércia do grupo me deixou cansada.

– Agora? – todo mundo se agitou e perguntou com espanto. – Você quer ir a algum lugar agora e com este tempo? – Alguns estavam, com certeza, pensando a estrangeira (branca) tem que ir a algum lugar agora? Meu motorista e amigo, Selamneh Techane, que estava inclinado com a cabeça apoiando sobre as mãos, virou e olhou para mim um pouco confuso. Toda vez que eu tentava levantar, a mãe de família ao meu lado livrava-se de mais uma camada de xale. © Taynée Mendes, 2012

Trecho original em inglês:

sábado, 8 de março de 2014

Tradução: Cynicism of Norman Douglas


O cinismo de Norman Douglas

A poligamia oriental, levada a cabo segundo o padrão de vida ocidental, seria um tremendo sorvedouro para arenda de um homem, e também uma grande responsabilidade. Absurdo seria, no entanto, supor que nossos homens adultos vivem de maneira monogâmica. Se um ou outro vive assim, com certeza lhe falta audácia ou preparo físico, ou ainda ambos. São poligâmicos, mas sua poligamia é praticada a preços módicos e com um mínimo de responsabilidade pessoal. Nossas leis europeias ditam que as amantes de um sujeito sejam sustentadas por seus próprios maridos.

É, de fato, um avanço em relação aos métodos orientais. © Taynée Mendes, 2013


Texto original em inglês:

Sobre escrever


Já dizia Carlos Drummons de Andrade, "escrever é cortar palavras".  Uns acreditam em inspiração, outros em trabalho duro. Confira algumas citações de grandes escritores sobre o laborioso/prazeroso ato de escrever.

“Se escrever parece difícil, é porque realmente é difícil. É uma das coisas mais difíceis que as pessoas fazem”. William Zinsser

“Escrever te dá a ilusão do controle, até que você percebe que é só uma ilusão, que as pessoas irão trazer suas próprias impressões para dentro do que você escreveu”. David Sedaris

“Escrever é uma forma socialmente aceitável de esquizofrenia.” E.L. Doctorow

“Não sou um bom escritor, mas sou um excelente reescritor.” James Michener

“Leituras fáceis são escritas muito difíceis.” Nathaniel Hawthorne

“Se meu médico me dissesse que eu teria apenas mais seis minutos de vida, eu não iria me queixar. Iria digitar um pouco mais rápido.” Isaac Asimov

“A estrada para o inferno é pavimentado por advérbios.” Stephen King

“A tinta e o papel são, por vezes, amantes apaixonados, muitas vezes, irmão e irmã e, ocasionalmente, inimigos mortais.” Terri Guillemets

“Escreva bêbado, edite sóbrio.” Ernest Hemingway

“Escrever é cortar palavras.” Carlos Drummond de Andrade

“O que é difícil não é escrever muito: é dizer tudo escrevendo pouco.” Júlio Dantas

“O poder de síntese é a alma da inteligência.” William Shakespeare

quarta-feira, 5 de março de 2014

Ana Karênina, de Leon Tolstói

O que faz dos clássicos clássicos? Entendidos apontam para uma característica essencial: a universalidade. Mas o que seria isso? Talvez sentir a mesma frustração de um cético russo do século XIX sentiria em busca da verdade? Ou compreender os desejos íntimos de uma mulher encantadoramente entediada? Ou aspirar pelo mesmo caráter de um prisioneiro que não ousa se vingar de seu algoz mesmo ao ter a oportunidade de fazê-lo? Quando a empatia é vigorosa, a percepção é de aprendizado. A literatura parece, de fato, nos ensinar mais sobre a vida do que o ato de viver.

Essa é a sensação ao terminar a leitura do clássico Ana Karênina, de Leon Tolstói. O estilo realista do escritor, capaz de pintar um cenário familiar, com suas intrigas e tensões, dispensa comentários. Sua escrita vai além, penetra nos mais profundos, por vezes assustadores, pensamentos dos personagens, como se estivesse a revelar sua alma. Característica, aliás, própria de grandes autores.

Ana Karênina é, sobretudo, uma história de amor em suas diversas facetas, seja no ambíguo arrendamento romântico seja na complacência necessária do perdão. Enquanto Anna é a personificação do primeiro, seu marido Alieksiei encarna o segundo.

Ana é casada com Alieksiei. É o tipo de mulher que encanta a todos, não somente por sua beleza, mas principalmente por sua educação. E, claro, por seu interesse genuíno pela vida de quem quer que fosse, ricos ou pobres, aristocratas ou camponeses – característica rara mesmo nos dias atuais. Personagem fascinante, Anna conhece o conde Vronsk e logo se apaixona por ele. A relação entre Ana e Alieksiei fica insuportável e a leva à separação.


O grande escritor russo parece compreender todas as engrenagens do coração, do amor e suas diversas nuances. Quando a paixão é nova e fresca, os dois amantes sonham com a felicidade e um radioso futuro juntos. Entretanto, quando tão sonhada reunião acontece, a felicidade almejada precisará lidar com difíceis e amargas realidades, como o ciúme doentio sentido por Ana.

Wrapped Up In Books, by Belle & Sebastian


Porque todo blog literário de respeito precisa ter esse clipe do Belle & Sebastian... ;)




Tatuagens inspiradas em livros




Para quem gosta de literatura e tatuagens (não necessariamente nesta ordem), eis um link com várias tatoos inspiradas em livros. Tem de tudo, desde clássicos da literatura universal até referências da cultura pop e nerd.


Link: http://www.pinterest.com/randomhouse/literary-tattoos/



O mestre e a Margarida, de Mikhail Bulgákov

Poucos livros valem cada palavra como o clássico moderno O mestre e a Margarida, de Mikhail Bulgákov. Iniciado em 1928, mas só publicado em 1966, depois de mais de vinte anos da morte de seu autor, o livro é um dos mais lidos em toda Rússia, tanto que várias passagens deram origem a provérbios russos. O mais famoso é  “Manuscritos não ardem”.

No entanto, não se restringiu somente à Rússia a influência de O mestre e a Margarida. Salman Rushdie, autor de Os versos satânicos, era fã confesso de Bulgákov; Mick Jagger escreveu a canção “Sympathy for the Devil” após ler o livro e queria até mesmo fazer um filme em que ele seria satã; “Pilate”, do Pearl Jam e “Love and Destroy” do Franz Ferdinand também foram inspiradas em passagens do livro. Há ainda uma ópera inteiramente dedicada à obra do compositor alemão Yourk Holler, Der Meister und Margarita, apresentada em 1989 em Paris.

Não foi à toa que Bulgákov é considerado um escritor satanista. Em 2006, o Museu Bulgákov foi vandalizado por religiosos. A assustadora capa da edição brasileira, feita por Victor Burton, também contribui para essa atmosfera. Há quem não consiga dormir com a capa virada para cima. Outros caem na gargalhada repetidas vezes. Para tremer ou sorrir, ninguém lê o romance de Bulgákov e sai incólume.