quinta-feira, 10 de março de 2011

A neutralidade de um cadáver

No livro ‘A passagem tensa dos corpos’, o escritor mineiro ironiza a morte ao dar à linguagem um papel central na narrativa


Ninguém vive sem um bom morto, diz o narrador do livro. Em sua estreia no romance, Carlos de Brito e Mello cria um personagem insólito em A passagem tensa dos corpos: incorpóreo, resta-lhe somente a língua que se divide em devorar restos de comida e registrar oralmente óbitos infindáveis.

Em uma cidade do interior de Minas Gerais, o narrador-personagem se vê em uma estranha situação. Alguém morre mas o corpo não é enterrado por seus familiares. Como se nada tivesse acontecido, o cadáver é mantido amarrado à cadeira na mesa da sala, enquanto a mãe e a filha, genericamente assim chamadas, se ocupam dos preparativos para um casamento sem noivo e ignoram um filho problemático trancado no quarto. Inquieto, o irônico narrador percebe que para existir de fato ele precisa se apropriar da linguagem.

Com 156 capítulos curtos e parágrafos fragmentados, A passagem tensa dos corpos procura evidenciar a constante ambiguidade da linguagem em relação à morte. Autor do livro de contos O cadáver ri dos seus despojos (Scriptum, 2007), o escritor mineiro acredita que a morte é o elemento propulsor do texto e ressalta o poder da palavra literária em conferir significados a ela.

O tema da morte é recorrente em seus trabalhos?
–Em O cadáver ri dos seus despojos, os contos não foram escritos com o propósito de se agruparem a partir da temática da morte. Já no romance elegi a morte como uma questão central. Inevitavelmente, tem a ver com minha relação pessoal com a morte. A morte corresponde a essa dimensão indizível da nossa experiência. A gente não a conhece, não consegue falar sobre ela, apenas experimenta essa neutralidade do cadáver. O cadáver não diz nada, só omite o que nós desejaríamos saber sobre a morte. Para mim a religião nunca foi uma possibilidade de compreensão da morte. Acho que a palavra literária pode ser uma forma de suportar a morte, de se aproximar dela e percebê-la em alguns de seus aspectos. A morte inaugura o texto. Em algum momento ela sempre estará lá.

Ninguém sabe. Nem Ubaldo.

Nesta entrevista, o escritor baiano fala sobre o romance 'O albatroz azul ', questiona o sentido da vida e da literatura e comenta as recentes mudanças no mercado editorial


Ninguém sabe nada. Eis o ponto de partida para O albatroz azul, primeiro romance de João Ubaldo Ribeiro lançado em sete anos. O livro conta a história de Tertuliano que, por alguma razão, está certo que sua vida vai mudar com a chegada de seu neto, que nasceu virado para a lua. Em 2007, o autor baiano foi para Objetiva mas ficou devendo, por contrato, uma nova obra à Nova Fronteira, que era sua editora havia mais de 20 anos. Nesta entrevista ao Ideias&Livros, João Ubaldo fala, sem medo de nomear as palavras, sobre seu aguardado romance, o mercado editorial e o imponderável da vida.

O albatroz azul é um livro menor no número de páginas em relação a outros de seus romances. O tamanho foi o ideal para contar a história?
– Quando comecei O albatroz azul, eu tinha em mente um livro grandão e comecei a escrever com pegada de um romance grande. Mas no meio do caminho, o livro se recusou a ser grande e se revelou pequeno. Nunca sei direito o que vai acontecer.

Como classificá-lo, romance ou novela?
– Romance, mas não estou muito certo. Não entendo nada de literatura. Sei que li muito. Mas quando sai um livro pequeno, eu fico satisfeito porque pelo menos sei que as pessoas vão ler. Suspeito que se mente muito no meio literário. São poucos que realmente leem um livro grande. Só que O albatroz azul ainda tem o defeito de ter parágrafos longos, porque eu sei que os livros mais lidos são geralmente pequenos e de parágrafos curtos.

Como surgiu a história do avô Tertuliano? Foi inspirada em alguém da Ilha de Itaparica?
– Não sei da onde veio esta história. Tenho idade para ter neto, mas ainda não tenho. Não tenho esse negócio de inspiração. Claro, Tertuliano pode até existir em Itaparica, porque é um personagem verossímil. Já aconteceu de me falarem que fulano, que foi a inspiração para um personagem meu, não é bem assim como descrevo. Não fico pensando na vida de ninguém. Talvez o personagem esteja em meu inconsciente, mas nunca saí por aí tomando notas e pegando alguém como modelo.

A vida é um truque da morte

Poeta da geração dos anos 50, Fernando Fortes parou de publicar, mas não de escrever


Ele participou ativamente do movimento de renovação da poesia brasileira nos anos 50, mas seu nome não figura ao lado de contemporâneos como Ferreira Gullar e Mário Faustino. Apesar de pouco conhecido, em um concurso da Biblioteca Nacional para eleger o mais importante poeta brasileiro vivo, realizado em 1998, Fernando Fortes recebeu quatro votos, sendo um deles bem valioso: o de Gullar, que levou o primeiro lugar.

– Fiquei muito envaidecido com o voto do Gullar – diz o poeta, escondendo um sorriso precedido de um lento silêncio.

Carlos Fernando Fortes de Almeida tem motivos para se emocionar. Há 50 anos, publicou no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil - o SDJB – o longo poema "Canto pluro", cuja última edição em livro, que data de 1982, é raridade nos sebos. Atestando seu talento, em uma carta de 1983, Antonio Houaiss considerou os poemas de Fernando “tão bem lavrados, tão bem mentados, tão bem articulados (...) que sua modernidade chega a constituir espanto”.

Mesmo ficando em terceiro lugar no 1º Festival de Poesia de Porto Alegre, em 1958. com Tempos e coisas – seu primeiro livro – Fernando Fortes só ganhou mais notoriedade depois da publicação de seus poemas no SDJB. Escrevendo desde os 15 anos, Fernando freqüentava a redação do Jornal do Brasil, onde participou de toda efervescência artística propiciada pelo famoso suplemento, precursor dos cadernos culturais.