domingo, 27 de fevereiro de 2011

O desafio da tradução literária


“O desafio da tradução criativa começa no momento em que constatamos que a única língua inteiramente ao nosso alcance é aquela em que de fato pensamos e vivemos”, escreve o tradutor Modesto Carone no livro Lições de Kafka, o qual, além de decifrar os enigmas da obra do escritor tcheco, reflete sobre a atividade do tradutor literário.

Na obra, Carone imagina a situação de um hipotético tradutor nórdico dos “Poema(s) da cabra”, de João Cabral de Melo Neto, diante de um verso como “se a serra é a terra a cabra é pedra”, onde as consoantes duplas parecem encher o verso de pedregulhos, remetendo à aridez do Nordeste brasileiro.

Uma dificuldade desse tipo levou o poeta Robert Frost a afirmar que poesia é aquilo que se perde nas traduções. Não é de hoje que se discute até que ponto pode-se avançar na tradução de uma obra literária, sobretudo quando envolve grandes autores. O tradutor é sempre alvo do velho adágio italiano traduttore, traditore, que relaciona tradutor a traidor. Será mesmo?

sábado, 12 de fevereiro de 2011

As mil e uma histórias deTahir Shah

O escritor anglo-afegão lança no Brasil seu segundo livro sobre a cultura oral árabe e o exército de demônios que habita sua casa em Casablanca, no Marrocos

Histórias que contam histórias – e, dentro delas, mais histórias em uma trama infinita. O caminho do clássico As mil e uma noites é o mesmo que Tahir Shah percorre em seu novo livro, Nas noites árabes: uma caravana de histórias, que dá continuidade a A casa do Califa, lançado no Brasil em 2008 e apontado como um dos 10 melhores de 2006 pela revista Time.

Trata-se de um livro de viagem, mas passa longe de um guia turístico. Pouco conhecido no Brasil, o gênero abarca livros como Um ano na Provence, de Peter Mayle, e Sob o sol da Toscana, de Frances Mayes. Assim como A casa do Califa, Nas noites árabes é um mergulho profundo e divertido na cultura islâmica, desvendando os costumes locais e suas lendas.

– Para mim, bons livros de viagem são aqueles que entendem e explicam o lugar – defende Tahir Shah. – Eles não dizem como você tem que ir de A para B ou onde comer ou se hospedar. Mas, antes, retiram o véu de uma cultura e a decifram. Dizem como as pessoas são de um jeito que os guias turísticos nunca chegam a alcançar.