domingo, 9 de janeiro de 2011

O escritor que entrou para o Guinness


O sino da igreja central anuncia as 6 primeiras horas do dia. No topo da serra da Mantiqueira, o município de Gonçalves aos poucos desperta. O padeiro prepara seus pães, o agricultor cuida de seu plantio. Na mesma hora, um profissional incomum se levanta para mais um dia. Aconchega-se em sua cadeira, liga seus dois computadores, um PC e um laptop, acende o cachimbo e começa a preencher a tela branca de seu monitor com o esboço de uma história que lhe veio à mente em plena noite. Eram 3 da manhã quando ele despertou a mulher, Nicole: “Amor, acorda! Acabei de ter uma ideia para mais um livro. Quero saber o que você acha”.

Madrugadas maldormidas não são raras na vida de Nicole Kirsteller Inoue, mulher do recordista mundial em livros publicados, José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue. Em julho de 2008, Ryoki atingiu a marca de 1.079 livros. Sua mente não descansa. Em plena madrugada, ele não hesita em acordar a esposa para saber se sua fabulosa ideia pode gerar um fabuloso romance.

Uma vida entre vírgulas

Junto à biografia lançada pelo escritor americano Benjamin Moser, chegam às livrarias publicações que tentam desvendar a obra e a personalidade da autora de 'A Hora da Estrela', cuja obra ganha importância cada vez maior fora do Brasil


Clarice Lispector parece ser assunto permanente nas rodas de leituras, debates e palestras. A enigmática escritora – que foi colunista do Jornal do Brasil entre 1967 e 1973 – sempre foi alvo de livros, teses acadêmicas e reportagens que, a princípio, tentam decifrá-la. A recente biografia escrita por Benjamin Moser, Clarice, (lê-se “Clarice vírgula”), editado pela Cosac Naify, o livro de contos e crônicas Clarice na cabeceira (Rocco), organizado por Teresa Monteiro, e a tese O percurso das personagens de Clarice Lispector (Garamond), de Bernadete Grob-Lima, comprovam essa incessante busca.
Apesar de ser estudado em universidades do mundo inteiro, o nome Clarice Lispector ainda soa estranho em muitos países, como os EUA. Quando a biografia de Moser foi lançada por lá, em agosto, a maioria das resenhas tratava a escritora como “uma grande descoberta” que deveria “ser mais conhecida”. Fascinado pela escrita intimista de Clarice e com o objetivo de divulgar sua obra, Moser aprendeu português e percorreu todos os lugares por onde a família Lispector passou, da agreste Podólia, na Ucrânia, ao famoso apartamento no Leme, onde a escritora passaria o resto de seus dias.
– Sempre quis fazer algo para torná-la mais conhecida – explica Moser, de 33 anos. – Esperava que alguém fizesse alguma coisa. Os anos passaram e ninguém fez nada. Então pensei: “Por que não eu?”. A julgar pelas reações positivas, pelo menos nos países de língua inglesa, acho que estou perto do meu objetivo.

O fim (dos livros) está próximo?

Jornada Literária de Passo Fundo discute mídia, tecnologia e prenuncia o limiar de uma nova era para as publicações impressas

O fim está próximo, dizem os profetas. Depois do cinema, do vinil, do CD, e até do fim da história, é a vez de o livro sofrer os mais terríveis vaticínios: as discussões sobre o futuro do formato se tornaram onipresentes na 13ª Jornada Nacional de Literatura, em Passo Fundo, este ano marcada pela conexão entre arte e tecnologia. Já na abertura do evento, o holandês Wim Veen fez declarações apocalípticas: “Esqueçam o papel. Nada mais de jornais ou livros impressos.”
Autor de Homo-zappiens: educando na era digital e coordenador da área de educação e tecnologia da Universidade de Tecnologia de Delf, na Holanda, Veen não dá mais que 25 anos para que os livros e jornais de papel possam ser substituídos pelos meios digitais. Para ele, é o tempo que as novas tecnologias demoram para se inserir nos hábitos de uma geração.
Recentemente, na Feira de Frankfurt, na Alemanha – maior evento do mercado editorial mundial – 2018 foi apontado como o ano zero do domínio digital sobre o papel. A pesquisa envolveu 840 pessoas que mantêm relação estreita com o objeto livro: editores, livreiros, jornalistas e escritores. Ao vaticínio somou-se a chegada ao Brasil do Kindle, leitor eletrônico que a Amazon lançou em uma versão internacional para mais de 100 países.
Se o anúncio do fim do livro causou frisson na feira alemã, no encontro de Passo Fundo não podia ser diferente. O escritor de livros juvenis – por enquanto, de papel – Pedro Bandeira, homenageado da Jornada, vê com bons olhos as novas tecnologias e concorda com Wim Veen ao acreditar que algum dia o papel possa ser substituído. Mas não em um mero quarto de século.
“Por enquanto o livro digital ainda é uma novidade, acho que vai demorar muito para ser popular no Brasil”, diz Bandeira. “E o livro continuará a existir, mas de outra forma. O que pode mudar é o papel, o suporte.”

Paul Auster brinca com verdades e mentiras


Como contar uma história de natal sem cair no sentimentalismo meloso e por vezes hipócrita geralmente associado à ocasião? Foi o que o escritor americano Paul Auster se propôs a fazer em Conto de Natal de Auggie Wren (Cia das Letras, 48 pp., R$ 36), edição especial com ilustrações da artista argentina Isol.

Perto do Natal, um jornalista do The New York Times telefonou para Paul – um escritor com o mesmo prenome de Auster – solicitando um conto por encomenda. Aflito com o desafio, pois nunca escrevera algo do gênero, Paul pede ajuda ao balconista Auggie Wren, "um sujeitinho estranho que usava um suéter azul com capuz" e trabalhava em uma tabacaria no Brooklyn. Até lhe pedir uma história de Natal, Auggie era apenas o cara do balcão para Paul. “Um conto de natal?”, perguntou Auggie. “É só isso? Se me pagar um almoço, meu amigo, vou contar para você a melhor história de Natal que já ouviu. E garanto que cada palavra dessa história é pura verdade”.