quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A poética da rave

Sons, atmosferas, sentidos aguçados, erotismo e fluidez fazem a coleção Ás de colete
Rotular a expressão artística sempre foi um recurso da crítica especializada para fugir da complexidade de certas obras. É o pensa o poeta Carlito Azevedo:
– Definições como poesia marginal ou poesia concreta só servem para ficar nas generalidades sem ter que enfrentar as contradições, a riqueza, os conflitos de individualidades poderosas – afirma ele. – Como classificar a poesia de Ricardo Domeneck, Walter Gam e Felipe Nepomuceno?
Os três integram a nova leva da coleção Ás de colete, parceria das editoras CosacNaify e 7Letras, que tem por objetivo publicar poetas contemporâneos. A charmosa edição em formato de bolso apresenta Ambiente, de Walter Gam, Mapoteca, de Felipe Nepomuceno e Sons: Arranjo: Garganta, de Ricardo Domeneck. O lançamento da trinca – e também de Monodrama, mais recente livro de Carlito Azevedo – será hoje, a partir das 10h, na Livraria Berinjela, no Centro do Rio.
Organizador da coleção, Carlito Azevedo também faz seu papel de crítico, apesar das ponderações acerca dos juízos literários:
– A crítica prefere trabalhar com generalizações, mas também vou generalizar, assumindo todos os riscos: o que uniria, se algo tem que unir esses três poetas, seria uma poética da rave, em tudo o que isso implica de sons, atmosferas, sentidos aguçados, erotismo e fluidez perceptiva.
Em Sons: arranjo: garganta, Ricardo Domeneck radicaliza sua experiência como DJ para samplear a língua portuguesa e inglesa. Além de poeta, Ricardo também divulga a poesia através de seu trabalho como editor de diversas revistas no Brasil, Espanha, Argentina, Estados Unidos e Alemanha. Atualmente ele vive em Berlim, mas não se considera um estrangeiro:
– Um dos aspectos mais recorrentes em meu trabalho, de forma quase obsessiva, tem sido o de questionar dualidades, como as que opõem subjetividade e objetividade, concretude e abstração, o corporal e o espiritual – diz Ricardo. – Era quase inevitável que isso me levasse a questionar noções de nacional e estrangeiro, especialmente por viver fora do Brasil.
Com apenas 19 anos, Walter Gam foi o vencedor do Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, promovido pela revista Cult, com o livro Variações de um movimento íntimo, de 2002. Só depois de sete anos é que o autor resolve lançar Ambiente, no qual se mostra mais amadurecido. Artista plástico, Walter desenvolve trabalhos com vídeo, instalação, desenho, pintura e fotografia.
– Talvez a relação entre artes plásticas e poesia seja mais ampla que a correspondência entre os participantes de um diálogo – explica o poeta mineiro. – Não encontro uma fronteira que, ao ser ultrapassada, classifica o trabalho como arte ou poesia. Estão todas do lado de fora do mesmo barco.
Aos 34 anos, Felipe Nepomuceno é o veterano da turma. Com três livros publicados – Marciano, Calamares e Aquário–, também é cineasta, autor de vários curta-metragens premiados. O livro Mapoteca traz a reedição dessas três coletâneas seguidas de três livros inéditos, inclusive um de contos. Mapoteca é ilustrado por vários desenhos de sua autoria.
– A questão do gênero, das identidades, tudo isso que já é diluído em nosso tempo, parece não fazer mais sentido para esse cineasta, desenhista, videomaker, prosador e poeta que, tendo passado a infância forçadamente viajando de exílio em exílio, não se deixa cartografar em qualquer lugar – diz Carlito Azevedo, cartografando Felipe.
Também na Berinjela, hoje, haverá o lançamento do segundo volume impresso da revista Modo de usar & co., com traduções para textos dos poetas Raúl Zurita, Efraín Barquero, Víctor López, Gertrude Stein, Ezra Pound, entre outros. As ilustrações são de Paulo Stocker.

Poemas
Esta única vida
Nesta cidade, cheia
de nuvens assustadoras
você não será impossível
e
a parte que vai conseguir dizer isso
estará ao meu lado,
derrotando o tempo que demora tanto
em fazer o que peço,
calando ilusões,
desenhos que poderiam ter saído.
Acho que você é a pergunta,
não, não acho.
Odeio pensar na minha saída.
Você é sim, agora vejo,
meu desencontro: esta única vida.

Felipe Nepomuceno

Hipnólogo com ereção

Ele, que estabelece o
constante, recorrente
meio-dia.
O peito à proa, sol
crescente no centro,
o caminho península ibérica
adentro é rico em nozes.

Ricardo Domeneck

Alcachofa

o que você diz é
mais do que eu
posso dizer
pra onde apontam
seus cílios
faz quase nada de som
entre os tentáculos a
areia contra os poros
mantinha um panorama de
derretimento
cortava em um
é esse o
centro de gravidade
em contraste que
isola cada palavra
cada uma das que
põe em
sequência

Walter Gam

*Caderno Ideias&Livros. Matéria publicada em 12 de dezembro de 2009.

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