quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A poética da rave

Sons, atmosferas, sentidos aguçados, erotismo e fluidez fazem a coleção Ás de colete
Rotular a expressão artística sempre foi um recurso da crítica especializada para fugir da complexidade de certas obras. É o pensa o poeta Carlito Azevedo:
– Definições como poesia marginal ou poesia concreta só servem para ficar nas generalidades sem ter que enfrentar as contradições, a riqueza, os conflitos de individualidades poderosas – afirma ele. – Como classificar a poesia de Ricardo Domeneck, Walter Gam e Felipe Nepomuceno?
Os três integram a nova leva da coleção Ás de colete, parceria das editoras CosacNaify e 7Letras, que tem por objetivo publicar poetas contemporâneos. A charmosa edição em formato de bolso apresenta Ambiente, de Walter Gam, Mapoteca, de Felipe Nepomuceno e Sons: Arranjo: Garganta, de Ricardo Domeneck. O lançamento da trinca – e também de Monodrama, mais recente livro de Carlito Azevedo – será hoje, a partir das 10h, na Livraria Berinjela, no Centro do Rio.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Em busca do caos polifônico

A necessidade, de criar sempre um best-seller aliada à urgência jornalística produziram um tipo de literatura feita com o olho no mercado que, segundo o escritor João Silvério Trevisan, “quase não dá para ler”. Ele está lançando Rei do cheiro, romance em que traça um painel da moderna sociedade brasileira, ao destrinchar o surgimento de uma elite que é fruto do milagre econômico dos anos 70. Para tanto, parte de uma pergunta banal: como nasce uma grande fortuna?

Com estrutura narrativa nada convencional, conta a história de Ruan Carlos, rapaz do interior de São Paulo que vai para a capital tentar a vida. Ruan sofre de uma vigorosa sudorese, motivo de seu fracasso com as mulheres. Até que, num lapso criativo, decide criar uma perfumaria nos fundos de uma loja na Rua 25 de Março, e inventa um desodorante que teria efeito afrodisíaco.

Valendo-se de fragmentos descartáveis da indústria cultural como jingles de rádio, músicas populares e novelas, o escritor constrói uma trama de múltiplos narradores que ora influenciam ora ironizam a cena, conferindo ao livro cheiro de experimentação. Nesta entrevista, explica sua nova experiência literária.


Rei do Cheiro é motivado pela indagação de como nasce uma grande fortuna?

– Conheci muita gente banal que enriqueceu de modo nada banal. Me instigava saber como se processa esse milagre num país como o Brasil, em que as leis e a ética são relativizadas em favor das circunstâncias. O atual momento brasileiro me pareceu propício para responder a essa pergunta porque, depois da chegada da “esquerda” ao poder, o conceito de elites se embaralhou. Então, em Rei do Cheiro, resolvi juntar várias elites, desde a econômica e política até a cultural e sindical, ou seja, dos antigos aos novos donos do poder. Afinal, já temos gente se tornando milionária graças às indenizações pelo espantoso motivo de ter feito oposição à ditadura militar.