domingo, 16 de abril de 2017

Elizabeth Gaskell: a Scheherazade britânica



A escritora inglesa Elizabeth Gaskell ainda é pouco conhecida em terras tupiniquins. Injustificadamente, é claro: seu nome é tão importante na literatura clássica inglesa que figura no Poet’s Corner, em Westminister Abbey, em Londres, ao lado de nomes mais conhecidos como a grande Jane Austen e o genial Charles Dickens. Aliás, foi dele que recebeu a carinhosa alcunha de “querida Scheherazade”, devido a sua habilidade em contar histórias.

Nascida em Londres, Elizabeth Cleghorn Stevenson Gaskell (1810-1865) foi autora de seis romances, vários contos e uma biografia de Charlotte Brontë, com quem se encontrou apenas duas vezes, mas manteve uma intensa amizade por cartas. Em seus livros, examina questões sociais de sua época, principalmente as consequências da Revolução Industrial no século XIX, a ascensão da classe média em uma arraigada aristocracia e a posição da mulher na sociedade. Sua obra mais representativa é, sem dúvida, Norte e Sul (1855), em que contrasta a vida industrial e “moderna” do Norte da Inglaterra com a vida do Sul, pacata e mais tradicional. O romance ganhou adaptação para TV pela rede britânica BBC em 2004.

A novela Uma Noite Escura foi publicada em 1863 – dois anos antes de sua morte – no formato de folhetim na revista All Year Round, de Charles Dickens, com o título A Dark Night’s Work. A trama conta a vida de Edward, filho de um advogado bem-sucedido; note: “apenas” um advogado e, por isso, era menosprezado pela pequena nobreza da região. Na Inglaterra vitoriana, ter dinheiro não significava muito se não fosse acompanhada de uma boa posição ou um título de nobreza. Naquele tempo, o dinheiro não comprava status. Mas Edward bem que tentou: tinha cavalos invejáveis, uma biblioteca enorme e quadros valiosos. Não era o suficiente para conquistar o respeito e admiração que tanto desejava. Casou-se com Lettice, de uma linhagem nobre e teve Ellinor como filha. Com a morte de Lettice, a menina se apegou cada vez mais ao pai, que mal sabia o que o destino reservava para os dois. Crescida, Ellinor se apaixona por Ralph, filho caçula da família Corbet. Ralph também a amava, porém seu amor acompanhava a ambição de se tornar juiz em Londres. E é sua ambição que pode colocar tudo a perder para os dois, principalmente após um grave acontecimento em uma noite escura que mudará para sempre a vida da família Wilkins.

Em Uma Noite Escura, Gaskell contrapõe duas concepções de modernidade. A primeira é vista de forma positiva na medida em que critica a espantosa discriminação de classes na Inglaterra, com seus motivos fúteis e valores questionáveis, evidente nas tentativas inúteis de Edward em pertencer à nobreza. A segunda é personificada na ambição de Ralph, um jovem que enxerga além de todos os preconceitos de classe e que enfrenta a sua família por causa do seu amor. Se Gaskell não vê com bons olhos o passado, tampouco vê um futuro industrial brilhante. No desenrolar do romance, a construção de uma ferrovia – com todo o seu simbolismo moderno – terá consequências drásticas na vida dos personagens.

Como em toda literatura inglesa clássica, é nos pequenos gestos que se revelam grandes personalidades. A maneira sutil de contar cada detalhe dos personagens faz com que o leitor mergulhe na história de cada um, desvendando motivações e temores profundos. Um estilo delicado, sim, mas não menos impactante. As cenas mais dramáticas que se seguem em Uma Noite Escura são contadas de forma serena e fria; uma frieza necessária para transmitir todo o horror ali presente.

Pelo tom obscuro, há quem diga se tratar de uma novela gótica, mas é possível ver traços realistas que ultrapassam a barreira do tempo e da história: pessoas materialistas com grandes ambições, capazes de tudo para atingir seus objetivos. Não muito diferente dos dias atuais. A mensagem do livro, tipicamente vitoriana, é clara: toda ação tem consequências, porém, alguns, como a doce e inocente Ellinor, costumam pagar um preço mais alto que outros.


São de Elizabeth Gaskell também as obras: Esposas e FilhasMargaret Hale (Norte e Sul)Cranford, O Chalé de MoorlandOs Amores de SilviaMary BartonRuth e Prima Phillis.



Uma noite escura
Elizabeth Gaskell
Tradução: Taynée Mendes
Editora: Pedrazul
Preço: 34,90
Páginas: 212
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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Loucas noites, Wild nights de Emily Dickinson

Se toda a a poesia de Emily Dickinson (1830-1886) pudesse ser resumida em uma frase, seria nesta: “Nature is the highest art.”

Uma das maiores escritoras de língua inglesa, Emily é dessas que tinha tudo para não ficar famosa. Nunca saiu da casa paterna, a pacata Amherst, perto de Boston, no nordeste dos Estados Unidos, nunca saiu do país ou conheceu cidades próximas e também nunca se casou  o que para a época era algo bastante “incomum” para uma mulher. A natureza lhe bastava. E é nela onde Emily enxergava sua poesia.

O ambiente natural  rios, pássaros, gramas, abelhas, sempre elas  parece inspirá-la a escrever sobre outros temas como amor, fé, amizade, fama, rebeldia e até morte  Emily presenciou a perda de muitos familiares e amigos queridos em um curto espaço de tempo. Em 1884, escreveu a uma amiga “The Dyings have been too deep for me, and before I could raise my heart from one, another has come.” Sua amargura, porém, não deixa esmaecer toda a delicadeza e simplicidade de alguns de seus poemas, como em “‘Hope’ is the thing with feathers” e “If I could stop one Heart from breaking”.

O verso livre o não respeito às convenções da época também caracterizam o estilo de escritora norte-americana. Pequenas omissões, o abuso de travessões e maiúsculas e a ausência de títulos estranharam seus primeiros editores, que chegaram a publicar em 1890, após sua morte, uma edição “corrigindo” esses erros. Acrescentavam títulos, mudavam palavras e versos inteiros para se conformar a uma métrica mais regular. Edições posteriores foram mais fiés à autora.

Falando em fidelidade, nesta edição bilíngue da Disal e tradução de Isa Mara Lando, é possível acompanhar como cada verso foi traduzido, assim como conferir comentários da tradutora, que enriquecem a compreensão do texto. E, como não se pode evitar, algumas “infidelidades” cometidas em função da métrica, do ritmo, da beleza sonora ou da expressividade. Mas ela afirma: “Por amor a Emily  doces Amigos meus  julgai-me com brandura.”

A edição ainda nos brinda com uma seção “faixas bônus” contendo poemas que não alcançaram uma tradução à altura em português. É motivador quando a tradutora  e também profunda conhecedora da alma de Emily  assume seu papel, explicando o texto, oferecendo alternativas e convidando o leitor a pensar junto. Sem dúvida, um livro necessário para os amantes de poesia e tradução.


Meus preferidos (inclusive as traduções):

If I can stop one Heart from breaking
I shall not live in vain;
If I can ease one Life the Aching,
Or cool one Pain

Or help one fainting Robin
Unto his Nest again,
I shall not live in vain.

Tradução © Isa Mara Lando:

Se eu impedir que se parta um Coração
Não terei vivido em vão
Ou abrandar uma só Dor, um só momento

Ou ajudar um Passarinho
A voltar de novo ao Ninho
Não terei vivido em vão.




A little Madness in the Spring
Is wholesome even for the King,
But God be with the Clown
Who ponders this tremendous scene
This whole Experiment of Green
As if it were his own!

Tradução © Isa Mara Lando:

Um pouquinho de Loucura
Ao chegar a Primavera
Faz bem até para o Rei,
Mas veja o Bobo da Corte  —
É ele que está com Deus
Pondera essa cena tremenda
A Experiência estupenda
E diz: “Esses Verdes são todos meus!”


Take all away from me, but leave me Ecstasy,
And I am richer then, than all my Fellow Men —

Is it  becoming me, to dwell so wealthily,
When at my very Door
Are those possessing more,
In boundless poverty?

Tradução © Isa Mara Lando:

Tirai-me tudo, mas deixai-me o Êxtase,
E rica serei, mais que todo o Ser Humano  —

Como posso redidir em tal riqueza,
Se vejo em meus Umbrais
Os que possuem mais,
em tal infinita pobreza?

Livro: Loucas noites, Wild nights - 55 poemas de Emily Dickinson
Tradução e comentários: Isa Mara Lando
Editora: Disal
Ano: 2010
Edução Bilíngue
Para comprar: Livraria Cultura

domingo, 27 de abril de 2014

Ficções, de Jorge Luis Borges


Ler um conto fantástico de Borges é como ler um grande autor como Dostoiévski pela primeira vez: uma experiência única. O alto padrão de sua escrita combinado com o teor intelectual e filosófico de seus contos conferem-lhe um estilo insólito primoroso, digno de grandes escritores.

Ficciones (1934-1944) é obra-prima de Borges, pois deu fama internacional a seu autor e marcou para sempre gerações de leitores no mundo todo. Esse grande livro reúne contos fantásticos cuja crítica especializada tem encontrado dificuldades nas análises interpretativas, múltiplas em cada caso.

Além de sua forte inspiração em Kafta, o que rendeu ao escritor ser um dos grandes nomes na literatura fantástica, a novidade do conto borginiano está na moderna conjunção de arte e pensamento.

Jorge Luis Borges, poeta douto, reflexivo e crítico, abomina o romance psicológico, é uma espécie de anti-Proust, um escritor absolutamente não confessional. Ele soube “ritmar o próprio pensamento dando expressão artística a uma constante reflexão sobre a literatura e a certas generalizações abstratas sobre o universo”[1].

A figura do Narrador, onipresente em suas narrativas, transforma a matriz do conto literário que ele, articuladamente, trabalha. Em “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o Narrador, ao longo do texto, joga com elementos ambíguos da ficção e da realidade, a ponto de direcionar o leitor a Sua perspectiva, muitas vezes falaciosa e abstrata, sustentada por argumentos conjeturais.

Como no excelente “A morte e a bússola”, Borges demonstrava também gostar de narrativas de aventura e policiais, porém com um particularidade: modifica substancialmente esses gêneros “pelo teor de perquirição filosófica e explicitação irônica do jogo intelectual que neles introduz”[2].

Não há como dispensar a contribuição do conto filosófico de Voltaire na formação de Borges. Neste tipo de conto predomina uma dualidade: de um lado, o plano da história (em que prestamos atenção no destino dos personagens), do outro, o plano do discurso (em que nos fixamos nas idéias do narrador em sua destreza em exprimi-las). Na verdade, essa dicotomia é latente em toda narrativa, mas aflora no conto filosófico pelo papel sobressalente que se atribui ao narrador. Este tenta impor sua visão de mundo intelectualizada e fantasiosa, às vezes beirando a sátira.

Apreciei muito a leitura de Ficções – apesar da edição da Editora Globo não merecer tantos elogios, com graves erros de revisão e tipográficos –, sobretudo pelo caráter extremamente universal de cada conto. É como se cada estória existisse além da História, desarraigada do tempo e espaço, autônoma em relação à realidade; sua metafísica transcende. Um livro para todas as gerações.

(Resenha originalmente publicada em fevereiro de 2008)

Livro: Ficções
Autor: Jorge Luis Borges
Editora: Globo
Ano:  2001


[1] Trecho de Davi Arrigucci Jr no prefácio a terceira edição da Editora Globo, São Paulo, 2001.

[2] Idem

domingo, 20 de abril de 2014

Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes



As palavras nunca são loucas (no máximo perversas), é a sintaxe que é louca.
Roland Barthes


O que é o amor? Indagação nada fácil de responder, poetas e românticos de todos os tempos se esforçaram e se esforçam para alcançar ao menos um resquício do que venha a ser Eros. Roland Barthes aposta então em outra pergunta: Como o amor se apresenta quando ele é comunicado? Isto é, quando está infundido num complexo emaranhado de estruturas e fórmulas que é a linguagem?

Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, pretende investigar o amor – ou a condição amorosa – no ponto de vista do discurso. A carta de amor, as declarações, são formas de tentar pôr em palavras um sentimento sublime e quase imperscrutável, por isso que o discurso amoroso é, muitas vezes, contraditório, exagerado, louco.

Para incorrer nesse desafio, Barthes, como ilustre intelectual da França de 1968, escolhe um método “dramático” na sua escrita, renunciando a exemplos e substituindo a simples descrição do discurso amoroso por sua simulação, desenvolvendo-se em primeira pessoa, o “eu” amoroso, posto que o livro todo é uma enunciação, e não uma fria análise. É alguém (o amante) que fala de si mesmo e do outro (objeto amado), que não fala.

Para compor o sujeito apaixonado, o semiólogo também se vale de inúmeras e preciosas referências, que acompanham essa enunciação ao longo do livro. As citações a Werther de Goethe norteiam todo o discurso, ao lado de textos clássicos como O Banquete de Platão, além de consagrados escritores – Proust, Flaubert, Balzac, Baudelaire, Stendhal – e filósofos – Freud, Sartre, Lacan e Nietzsche. Há também o que Barthes recolheu em conversas com amigos e experiências de sua própria vida.

Abordando de maneira criativa um tema considerado démodé para a intelectualidade da época, Fragmentos de um discurso amoroso é livro obrigatório para aqueles que se interessam por literatura, linguística, filosofia e, é claro, amor.

Livro: Fragmentos de um discurso amoroso
Autor: Roland Barthes
Editora: Martins Editora
Edição: 1ª edição
Ano:  2003

(Resenha originalmente publicada em fevereiro de 2008)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda

Uma das verdadeiras obras fundadoras da moderna historiografia e ciências sociais brasileiras, Raízes do Brasil é um clássico que dispensa apresentações.

Sérgio Buarque de Holanda se propõe a investigar, como exposto no título, as raízes sócioculturais fundadoras do Brasil, isto é, o que faz com que nosso “jeitinho” seja facilmente reconhecido como característica eminentemente brasileira.

Nossa incapacidade de separar vida pública e vida privada, valorizando mais aspectos afetivos que meritórios, continuam trazendo consequências, principalmente, nas relações de trabalho, em que o nepotismo é prática constante e histórica.

Essa característica juntamente com outras constroem a imagem do “homem cordial”, o qual não pressupõe bondade, mas somente o predomínio de comportamentos de aparência afetiva. Não seria o espelho de nossa sociedade?

Tanto pelo seu método de análise quanto pela erudição e desenvoltura da escrita, Raízes do Brasil, publicado pela primeira vez em 1936, se mantém atual e influenciando gerações de historiadores. Todas essas qualidades fizeram deste livro, nos dizeres de Antonio Candido, “um clássico de nascença”.

Livro: Raízes do Brasil
Autor: Sérgio Buarque de Holanda
Editora: Companhia das Letras,
Edição: 26ª edição
Ano:  2007

(Resenha originalmente publicada em 14 de junho de 2008)

segunda-feira, 17 de março de 2014

A biblioteca do tradutor



É consenso afirmar que para traduzir bem é preciso antes saber escrever bem. Eu acrescentaria  "ler bem" à sequência. Por isso, listo aqui alguns livros essenciais que não poderiam faltar na biblioteca do bom tradutor.

Paulo Rónai, A Tradução Vivida. Rio de Janeiro, José Olympio, 2012. (edições anteriores da Nova Fronteira)

Paulo Henriques Britto, A Tradução Literária. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2012. 

Paulo Rónai, Escola de Tradutores. Rio de Janeiro, José Olympio, 2012. (edições anteriores da Nova Fronteira)

Rosemary Lajolo, Oficina de tradução: A teoria na prática. São Paulo: Ática, 2007

Brenno Silveira, A Arte de Traduzir. São Paulo, Unesp/Melhoramentos: 2004

Umberto Eco, Quase a Mesma Coisa. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2007.


Para melhorar o português:

Othon Moacyr Garcia, Comunicação em Prosa Moderna. São Paulo: FGV, 2010.

Gladstone Chaves de Melo, Ensaio de Estilística da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria Editora Padrão, 1976. (Esgotado, apenas em sebos!)

Adriano da Gama Kury, Novas Lições de Análise Sintática. São Paulo: Ática, 2003.


Para quem traduz do inglês:

Agenor Soares dos Santos, Guia Prático da Tradução Inglesa. São Paulo, Elsevier, 2007.

Alguma outra sugestão?

quinta-feira, 13 de março de 2014

Tradução In Cold Blood, by Truman Capote

O Chevrolet negro estava estacionado novamente, desta vez em frente ao Hospital Católico nos arredores de Emporia. Sob contínua provocação, (“Seu mal é esse. Acha que há somente uma maneira de resolver as coisas – a maneira de Dick”), Dick se rendeu.

Enquanto Perry esperava no carro, Dick entrou no hospital para tentar comprar um par de meias pretas de uma freira. Tal método nada ortodoxo foi ideia de Perry: as freiras, dizia, certamente teriam um estoque. Havia uma desvantagem, porém: as freiras, e seus pertences, davam azar, e Perry levava a sério suas superstições. (Outras eram o número 15, cabelos ruivos, flores brancas, padres atravessando a rua, sonhar com cobras).

Ainda sim, nada podia ser feito. Os supersticiosos compulsivos, em geral, acreditam piamente no destino. Com Perry não era diferente. Aqui estava, envolvido nessa missão, não porque desejava, mas por obra do destino. Poderia prová-lo – mas não tinha intenções de fazê-lo, ao menos perto de Dick, pois a prova envolveria a confissão da verdade e do motivo de seu retorno ao Kansas, uma violação da condicional que decidira não fazer parte dos “planos” de Dick ou sua carta de convocação. © Taynée Mendes, 2012

Trecho no original em inglês: